Em resposta a:
caiado |
Um conhecido site de fotografia lançou uma colectânea em formato livro daqueles que considerou os melhores trabalhos publicados naquele endereço ao longo de cinco anos de inserções de fotografia.
Levantam-se duas questões. A primeira, sobre a validade enquanto projecto. A segunda, sobre a validade enquanto projecto de fotografia.
É que, enquanto a primeira é perfeitamente oportuna e, sobretudo, importante enquanto ferramenta de afirmação da robustez e viabilidade do site enquanto projecto, já a segunda deixa em aberto uma questão de suma importância nos dias que vivemos: o que é hoje a fotografia ?
Parece estúpido ? É-o. Se eu fosse pintor, sentir-me-ia estúpido ao pintar. A pintura é já ela mesma uma ´natureza morta´enquanto arte. Sobretudo após o advento da fotografia e, mais recentemente, do grafismo computacional.
É estúpido. Imaginem a incontornável távola redonda dos aleatórios júris que atiram jpg's para um lado e para outro, consoante os seleccionam para o livro ou os rejeitam. Uma fotografia de Mário Soares é uma boa fotografia? E uma fotografia de um concerto?
O que é uma fotografia merecedora de dar pretígio á Arte da Fotografia? Uma imagem de fotojornalismo? Um instantâneo de um acidente, de um sinistro, de uma criancinha? Um retrato de uma gaja apetecível mas não mais que na ganância da testosterona?
São isto exemplos de boa fotografia? Os prodígios da iluminação de estúdio, as virtudes dos ecrans retroiluminados e das ferramentas de tratamento de imagem, serão exemplos de boa fotografia?
Os supermercados estão cheios destes exemplos de 'boa fotografia' à espera de moldura (ou podem se pespegados assim mesmo na parede, com fitacola ou pastilha elástica). E não é por isso que são salas de arte. Os supermercados.
A minha DECLARAÇÃO DE REVOLTA é apenas esta: não há coragem. Anda tudo a repisar o vomitado alheio e a cultivar seguidismos, por comodismo ou por incapacidade criativa. Por miúfa. (Uma forma apaneleirada de medo).
Nas ´távolas redondas´elegem-se fotografias por serem dos mários soares deste cagadouro a noroeste de Espanha; por serem trabalhos de iluminação; por serem fracções do presente, momentos do espectro político, social e afins; por ser esta e aquela gaja com isto e aquilo a ver-se sem grande esforço; por ser um engraçado instantâneo e precisarmos desesperadamente de rir; enfim, - ponto.
Nota Final: há franjas no espectro da fotografia que raramente são abordadas. NA base desta raridade estão questões de ordem vária que não interessa. Mas cada site tem hoje, mais que qualquer júri a cheirar a mofo, a responsabilidade de apontar os caminhos que de direito cabem à Fotografia. Quando, em complemento à formula democrática de se permitir a inserção de imagens, se parte para a responsabilidade editorial de deitar um livro cá para fora, os critérios devem ser no mínimo - no mínimo - rigorosos. E, tecnicismos, facilitismos, servilismos e engraçadismos, academismos e mainstreamismos, ficarão obrigatóriamente de fora.
Editar um livro é um manifesto, uma ~proposta filosófica. Irei mais longe e escrevo hoje que, editar um livro de fotografia será na sua essência, por inerÊncia, UMA DECLARAÇÃO DE GUERRA.
Tinha de fazer isto. Todos os (as) que me trouxeram par a Fotografia e que Aqui me mantiveram, merecem-me isto. Salut | |